Cadeado, muro, grade, senha. Artifícios que utilizo para garantir a minha segurança e a de meus bens. Um zelo que seria desnecessário se eu não tivesse (quisesse) tanto. Segurança. Insegurança. Ainda que eu esteja devidamente escoltado pelas paredes, portões e suas fechaduras, o medo pula o muro e me encontra. A violência do noticiário entra pela TV e me espreme no sofá. Ainda que eu troque de canal, ainda que eu feche as janelas, o medo é líquido e entra pelas frestas.
Checo cada tranca e ativo todos os alarmes do carro, da casa; mas o perigo de perder o que tenho não é a única sensação a me tirar o sono. Isolando-me da marginalidade, escondendo-me da violência, afastando-me da cidade, privando-me de passeios noturnos, evito certos lugares e, até mesmo, tranco-me em casa “para não dar chance ao ladrão”. A pergunta inquietante é: se me afasto da sociedade, quem é o marginal? Se me tranco em casa, quem foi preso? Minha mente não é tão bem protegida quanto a minha conta no banco, nem blindada como meu carro e torna-se cada vez mais difícil evitar que ela seja invadida por pensamentos como esse.
Outra inquietação que me acomete diz respeito à responsabilidade social pelo bandido de que fujo. O sistema que o coloca à margem da sociedade é o mesmo que me coloca no topo. Se tenho tanto que preciso protegê-lo; acaso não é um pouco do que tenho, que falta àquele que me agride? Aquilo de que ele precisa não é dele por que é meu. Mas ele ainda precisa, e por isso rouba. Quem se tornou o bandido, enfim?
Ignorando essas e outras frustrações, tranco-me com minhas posses e meus iguais num condomínio fechado e gozo de todo o luxo e conforto de que disponho. Agarro com força as vantagens de minha prisão domiciliar e não preciso pensar no bandido, no mundo real, nem em tudo o que perdi.
