Sexta-feira, Outubro 23, 2009

Blinde-se. Arme-se. Desfrute a vida

Cadeado, muro, grade, senha. Artifícios que utilizo para garantir a minha segurança e a de meus bens. Um zelo que seria desnecessário se eu não tivesse (quisesse) tanto. Segurança. Insegurança. Ainda que eu esteja devidamente escoltado pelas paredes, portões e suas fechaduras, o medo pula o muro e me encontra. A violência do noticiário entra pela TV e me espreme no sofá. Ainda que eu troque de canal, ainda que eu feche as janelas, o medo é líquido e entra pelas frestas.

Checo cada tranca e ativo todos os alarmes do carro, da casa; mas o perigo de perder o que tenho não é a única sensação a me tirar o sono. Isolando-me da marginalidade, escondendo-me da violência, afastando-me da cidade, privando-me de passeios noturnos, evito certos lugares e, até mesmo, tranco-me em casa “para não dar chance ao ladrão”. A pergunta inquietante é: se me afasto da sociedade, quem é o marginal? Se me tranco em casa, quem foi preso? Minha mente não é tão bem protegida quanto a minha conta no banco, nem blindada como meu carro e torna-se cada vez mais difícil evitar que ela seja invadida por pensamentos como esse.

Outra inquietação que me acomete diz respeito à responsabilidade social pelo bandido de que fujo. O sistema que o coloca à margem da sociedade é o mesmo que me coloca no topo. Se tenho tanto que preciso protegê-lo; acaso não é um pouco do que tenho, que falta àquele que me agride? Aquilo de que ele precisa não é dele por que é meu. Mas ele ainda precisa, e por isso rouba. Quem se tornou o bandido, enfim?

Ignorando essas e outras frustrações, tranco-me com minhas posses e meus iguais num condomínio fechado e gozo de todo o luxo e conforto de que disponho. Agarro com força as vantagens de minha prisão domiciliar e não preciso pensar no bandido, no mundo real, nem em tudo o que perdi.

Sexta-feira, Fevereiro 27, 2009

O Mito do amor que completa

Típico da civilização atual, o mito do amor que completa se origina na infelicidade e insatisfação social.Tal como a insatisfação pública gera o mito do herói, a solidão gera o mito do amor. O maior câncer¹ da cultura contemporânea é o hábito nefasto de afastar de si a responsabilidade sobre si mesmo, depositando-a nas mãos etéreas do Estado, do Destino, da mítica Sociedade.

Já viste a sociedade? Já conversaste com ela? Como pode este organismo maléfico de efeitos tão nocivos, confundir-se tão intimamente conosco em seu conceito essencial?

Simplesmente por que a Sociedade é formada por nós, ainda que usada como depósito imaginário de tudo o que há de podre dentro de nós, bem como dos renegados responsabilidade e poder de decisão.

Dissipando-se estes agentes ilusórios, criados por nós para aliviar a realidamos, nos deparamos com algo nem tão duro nem tão frio, mas perfeitamente aceitável que é a felicidade e a plenitude da existência².

Quando temos a coragem necessária para resgatar para nossas mãos a responsabilidade por nossa existência, para voltarmos a ser os únicos capazes de escolher por nós, de optar por ser o que queremos ser³, então não há fator externo mais capaz de nos tornar felizes que a nossa consciência.

O mito do amor que completa é uma consequência e uma causa da emancipação da felicidade, que deixa de ser parte de nós para ser vista como um objeto, uma fator que nos causaria a felicidade. Nega-se a felicidade quando se racionaliza este instinto natural de contentamento.

A necessidade de um motivo pra ser feliz encaixa-se na organização social monogâmica e patriarcal em que vivemos, formando a idéia errônea de que é preciso viver um amor conjugal para ser completo e feliz. Que o amor é o agente causador da felicidade buscada, tão cegamente, em todos os lugares errados. A Plenitude, nunca encontrada, provoca  a desilusão amorosa, a frustração da espectativa de vida plena com o ser amado .

Somente na admissão de si mesmo, e não do amor, como agente da nossa felicidade, é que será possível a realização pessoal e conjugal, bem como da vida pública, por consequência.

O amor não é uma necessidade, uma obrigação ou um caminho para regeneração. O amor é natural e involuntário, um dos poucos instintos que podem ser nocivos. O amor deve ser vivido, não especulado, nem cobrado de qualquer coisa boa que dizem vir do amor. Mas isso é matéria pra outro post, esse aqui acabou.

Segunda-feira, Dezembro 15, 2008

O Significado da Vida

Ora, eu sou muito mais interessante que um monte de poeira, e daí que as estrelas brilham no céu à noite? Eu tô viva, consciente e sou mais legal que um bloco de massa gigante com água e pessoas em cima, que nem é capaz de dizer “Pára tudo! A partir de hoje eu vou girar pro outro lado!”. Francamente…

Sexta-feira, Dezembro 05, 2008

A Traça

É uma traça que está mais pra monstro que pra traça. Que se alimenta de livros, de móveis, de vida e de gente. De plantas, de quadros, de fotos, de rostos. Almoça juventude, janta alegria, deixa rastros sobre a mesa. Consome lentamente as vísceras imateriais da lembrança da infância, afasta seus restos mortais. Jamais foi vista passando ou comendo, apenas sentimos o vazio deixado quando nos corrói por dentro. Eternamente roendo e cumprindo seu fado. E pra quem duvida de seu trabalho, corrói por fora, trabalho dobrado. Por onde ela passa, desfaz o passado, desfaz o sentido, desfaz a memória. O medo e a raiva se quedam aos pés daquela que também digere a insegurança. A saudade é a única imune à sua boca e seus dentes, pois até os afetos ela mina. Tão cruel é a traça do tempo.

Domingo, Novembro 16, 2008

Toca Raul

A Geração da Luz


Eu já ultrapassei a barreira do som
Fiz o que pude às vezes fora do tom
Mas a semente que eu ajudei a plantar já nasceu
Eu vou
Eu vou m'embora apostando em vocês
Meu testamento deixou minha lucidez
Vocês vão ver um mundo bem melhor que o meu
Quando algum profeta vier lhe contar
Que o nosso sol tá prestes a se apagar
Mesmo que pareça que não há mais lugar
Vocês ainda têm
Vocês ainda têm
A velocidade da luz pra alcançar
Vocês ainda têm
Vocês ainda têm
A velocidade da luz pra alcançar
Então vai lá!
Além, depois dos velhos preconceitos morais
Dos calabouços, bruxas e temporais
Onde o passado transcendeu a um reinado de paz
Vocês serão o oposto dessa estupidez
Aventurando tentar outra vez
A geração da luz é a esperança no ar
Quando algum profeta vier lhe contar
Que o nosso sol tá prestes a se apagar
Mesmo que pareça que não há mais lugar
Vocês ainda têm
Vocês ainda têm
A velocidade da luz pra alcançar
Vocês ainda têm
Vocês ainda têm
A velocidade da luz pra alcançar

Composição: Raul Seixas e Kika Seixas

Quinta-feira, Setembro 11, 2008

Por que lutar?

Eu não assisti ao que aconteceu antes de eu nascer. E fico perdida, sem saber exatamente como e quando ocorreu. Sem saber que forma tinha ou se era invisível. Eu só sei que isso-que-foi... Foi como uma neblina assolando o planeta. Trazendo torpor e sonolência aos cidadãos do mundo. Foi feio e foi agressivo
[mas devia ter palavras macias.

Lutar contra quê? Contra essa película de conformismo que cobre a sociedade atual. Contra essa falta de vontade de lutar, de reclamar, de criar, de agir, de escolher e de ser. Precisamos lutar contra aquilo que nos tira a sede da vida. E contra o que tira a própria vida.
É cada vez mais superficial o nosso pensamento, o nosso sentimento, o nosso instinto. Tornamo-nos tão pouco profundos que seriamos facilmente preenchíveis – e aparentamos satisfeitos cada vez mais rapidamente. Mas nunca se ouviu tantas queixas do famoso Vazio, o que ataca nos momentos de reflexão. Seria um sinal? A estranha sensação de que ainda há algo de errado? Ou seria um ruído vindo debaixo da nuvem de poeira, daquilo que ela devia esconder ou acalmar?
E eu pergunto, e por que aceitar?
Aceitar o que pode ser melhor, o que nos faz mal, o que nos cega, o que nos imobiliza... Parece certo pra você? Abonar o desrespeito (a mim e a quem vive – humano ou não) nunca me soou a única opção.
E os direitos humanos? E a camada de Ozônio? E o Oriente Médio? E a África? E a Amazônia? E o Cerrado? Lutar contra tudo aquilo de que se reclama, enquanto assiste ao jornal e cruzam-se os braços. Lutar contra o que regride e contra o que nos arrasta. Mas principalmente, lutar pelo ideal, lutar pelos princípios, pelo sonho, por você, pelos que foram e pelos que virão. Pelos que não têm sonho e pelos que não têm nada.

- Sentar a bunda na frente desse computador o dia todo é uma escolha sua (e um problema nosso), mas não será por falta de causa por que lutar. -

A Arma? A informação. Mas atire, que conhecimento parado e merda tem definições muito próximas. Pratique e passe adiante.